A Fundação Síndrome de Down alfabetiza?

Essa pergunta inquieta usuários, familiares, profissionais, conselheiros e diretores da Fundação. Temos buscado respostas para ela. Tais respostas são elaboradas em nossas reuniões de equipe, durante os estudos que realizamos de cada caso em atendimento, nos Grupos de Família, nos momentos de formação continuada, nas conversas que se dão pelos corredores da Fundação… Decidimos que a “Roda de Conversa” seria um espaço ideal para que mais uma vez, compartilhássemos nossos conhecimentos, reflexões e experiências acerca dos processos de letramento e de alfabetização, dando ênfase ao papel de três importantes instituições: a família, a escola e a Fundação.

A “Roda de Conversa” do dia 22 de fevereiro oportunizou a todos os participantes e membros da equipe da Fundação experiências nas quais a importância das relações familiares ganhou ainda mais visibilidade e força também no que se refere ao letramento e à alfabetização. Como isso se dá? Na medida em que fatos do dia a dia são apresentados às pessoas com Síndrome de Down ou deficiência intelectual sem que a riqueza do detalhe se perca.

Em casa toca o telefone. Quem será? Um amigo, um tio, a avó materna? Parece-nos claro quando ocorre de uma pessoa atender o telefone, trocar algumas palavras com alguém (?), ao terminar a ligação se arrumar e como num passe de mágica minutos depois se encontrar com outra pessoa no shopping para tomar sorvete. Pode ser que essas conexões disparadas pelo simples toque do telefone não sejam construídas espontaneamente por uma pessoa que têm deficiência intelectual. Por isso é preciso a ela narrar os fatos detalhadamente dizendo quem ligou, revelando que um convite para tomar sorvete no shopping Dom Pedro foi feito, explicitar que a roupa utilizada em casa pode não ser adequada ao espaço do shopping por isso é preciso trocá-la, verbalizar que durante a conversa ao telefone combinou-se um horário e um local onde você e mais um amigo irão se encontrar, para que em seguida façam um passeio adocicado com um delicioso sorvete.

Para além da narrativa de fatos rotineiros é preciso que a pessoa com deficiência intelectual também tenha a oportunidade de comunicar-se, de interagir, de reunir-se com seus amigos para tomar sorvete… São essas experiências narradas por outrem e vividas por cada um de nós as quais recorremos nos momentos em que somos desafiados a escrever “sorvete”, por exemplo. As experiências que temos a oportunidade de viver nos ensinam sobre como escrever as palavras. Já dizia Paulo Freire que devemos nos empenhar na “leitura do mundo para que cheguemos à leitura da palavra”. Será muito difícil ler e escrever uma palavra sem que tenhamos chances de “ler o mundo”.

Para que uma pessoa, com deficiência ou não, compreenda como funciona o sistema alfabético e se desafie na leitura e na escrita das palavras é preciso que seja ensinada. A instituição responsável por esse ensino é a escola, pois nela existem profissionais especializados no campo da educação que dispõem de conhecimentos, experiências e de um ambiente propício para esse ensino: as classes regulares/comuns. Não há um método de ensino específico para alunos que têm Síndrome de Down ou deficiência intelectual. A questão que se coloca diz respeito à contrapartida esperada por alguns professores não ser compatível com as capacidades que a pessoa com deficiência tem para se aventurar, fazer conexões e construir conhecimentos acerca da leitura e da escrita. Caberá à escola verificar se os desafios que tem apresentado aos seus alunos são adequados para que os façam atualizar seus conhecimentos (ou não), ampliando as possibilidades de leitura e de participação efetiva nos diferentes espaços sociais. A leitura e a escrita devem contribuir com a “leitura do mundo”. Se elas forem ensinadas de maneira mecânica, automática sem conexão com as experiências de vida de cada pessoa, terão um fim em si mesmas e pouco ou quase nada contribuirão para que pessoas com deficiência sejam protagonistas de suas vidas.

À Fundação cabe complementar e/ou suplementar as ações da escola com recursos, estratégias e procedimentos especializados. É a escola que deve apresentar o seu método as pedagogas da Fundação e não o contrário. Às pedagogas da Fundação caberá estudar cada caso em atendimento, dialogar com a equipe pedagógica da escola e compartilhar novas tecnologias para que o usuário por elas atendido acesse os conhecimentos que são ensinados e circulam em suas turmas. O currículo, os conteúdos ensinados serão os mesmos. O que pode mudar é a maneira de apresenta-los. Essa maneira/forma será identificada, criada em um trabalho colaborativo e inclusivo construído pela equipe pedagógica de cada escola, as pedagogas da Fundação e outros interlocutores que se fizerem necessários.